top of page
Códigos

Feitiços da Língua

Conjurando línguas, têm-se feitiço e liberdade 

         

 

 

 

 

 

       

   Encarreguei-me de redigir o texto curatorial, mas não sabia por onde começar. Como é possível escrever com palavras uma proposta de objeção ao uso tradicional, formal, acadêmico e erudito da linguagem? Partimos de um consenso neste projeto de que certos códigos linguísticos são responsáveis por exclusões e criação de hierarquias sociais, mecanismos típicos do sistema capitalista e colonial. Não gostaria de escorregar nessa mesma lógica. Considerando que “Códigos: Feitiços da Língua” expõe artistas que transgridem imposições linguísticas e exploram suas próprias linguagens, sinto a necessidade de acessibilizar esta leitura de outra forma.

         Penso que um caminho possível seria escrever algo que fosse de fácil compreensão, sem rebuscamentos e floreios, pois a inacessibilidade é preponderante em códigos do sistema colonial (a linguagem acadêmica que limita a criatividade, códigos de programação, a exigência da língua inglesa para o trabalho, etc). Mas fui surpreendida pela minha própria contradição, já que as obras desta exposição não estão esperando para serem desvendadas por um texto. Elas existem como palavras ou imagens expressas em comunicação encriptada, ícones legíveis apenas a alguns grupos ou indivíduos. Uma real apreensão de seu significado só é possível através da vivência. O que me instiga não é sua tradução, e sim o movimento de codificação das experiências, capaz de nos sensibilizar sobre os múltiplos lugares de onde partem os símbolos.

           Escolho, portanto, falar dessa exposição atravessada por sensibilidade, mirando na codificação como estratégia de resistência. Me cerco e me inspiro pelo pensamento de Antonio Bispo dos Santos. Em seu livro A terra dá, a terra quer (2025), o autor expressa que a contracolonização é realizada pelas pessoas na favela ao preencher a língua portuguesa com palavras que o colonizador não entende — enfeitiçam a língua. Vindo de um contexto da agricultura no quilombo, o autor fala em lançar as sementes destes neologismos, símbolos gráficos, códigos, e germiná-los em novos solos. Inventar códigos, encantar a língua e conjurar novos glossários parece um interessante caminho contracolonial. Que invoquemos, portanto, nossas gírias para proteger nossos coletivos.

             

             Cada artista enfeitiça à sua maneira. Em um primeiro momento, utilizam-se do alfabeto latino, seja ele literal ou abstrato. Outros alfabetos também são representados, como o árabe e a escrita shodo. Uma das salas da exposição contém obras que pensam os vocabulários encontrados na natureza. Em outra, o ambiente urbano e símbolos da cidade ganham a cena. De repente, começamos a ter dúvida se olhamos para imagens ou textos. Percebemos, então, que nessa metamorfose, somos colocados cara a cara com imagens sem letras, que não deixam, no entanto, de ser texto. 

 

          Salivamos a boca de ideias olhando para as magias do espaço. Penso que a linguagem, seja como palavra escrita ou falada, pode ser capaz de transmitir ideias, mas nem sempre abarcar sensibilidades… a não ser que seja poesia. Mas poesia vai além da palavra escrita. É voz, ritmo, pensamento-além que a cabeça, olhos e ouvidos fazem para alcançar a sensação. Precisamos seguir dispondo de outras maneiras de dizer, no gerúndio mesmo, em continuidade... É dançando entre palavras e imagens que es artistas aqui presentes encontram maneiras de enfeitiçar as línguas.

 

Por: Mari Dagli

Outro dia, sonhei que pessoas escravizadas, num contexto pós-abolição, não dispunham de canetas para assinar suas cartas de alforria. Sua estratégia foi escrever usando cera de vela misturada com fuligem. Inventar um jeito de falar. Acho bonito como a palavra alforria no português tem origem no árabe الحرية, al-ḥurriya, que significa “liberdade”. Que novos códigos venham para libertar.

bottom of page