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Mutirões 

Contradança

          Encontrei dificuldades ao iniciar esse texto até me lembrar de um poema de Carlos Drummond de Andrade, Quadrilha¹, publicado em 1930:

       

  Os versos do poeta mineiro não só refletem sobre as imprevisibilidades da vida e dos desencontros amorosos, mas se debruçam também sobre a complexidade humana frente à solidão. A quadrilha nada mais é do que uma dança coletiva. Trata-se de um bailado em pares — casais que aos poucos se trocam e se desfazem. Aqui, a lembrança se deu menos pela desilusão amorosa e mais pela estrutura do texto, que vai de encontro com as temáticas da exposição, o lugar em que ela acontece e como vim parar aqui.

           Mutirões é uma exposição que nasce de um impulso coletivo de colaboração e experimentação, do desejo de esgarçar os limites e hierarquias convencionais entre arte e tatuagem. Por isso, ela mobiliza trabalhos de artistas residentes, convidades e inscrites, que priorizam a coletividade tanto como forma, quanto como conceito ou procedimento. Nesse aglomerado surgiram proposições artísticas múltiplas, mas com particularidades recorrentes: a formação de geografias e cartografias que encaram o espaço urbano como território psíquico, político, social e arquitetônico; experiências individuais que ressoam em vivências coletivas e compartilhadas — tanto através da intimidade, quanto da ancestralidade; e operações poéticas e formais de repetição, acúmulo e seriação. O Torttto surgiu desse mesmo impulso, como uma iniciativa independente que só se concretizou a partir do mutirão: enquanto alguém pintava uma parede, outra pessoa varria o chão e outra fazia a cópia das chaves para que todes pudessem não só tatuar, mas estabelecer uma rede e espaço de apoio, trabalho, parceria e amizade.

            Fui convidada pela Mari para somar nas ações do estúdio, que se ampliam em forma de exposição e, agora, em forma de texto. Eu a conheci quando conheci Escobar. Ele conhecia Diego que conhecia Gian, mas também conhecia Lucas que conhecia Estéfani que trabalha comigo e que conhecia Giulia que conhecia Íris. Mari que conhecia Taiom, que também me conhecia, conhecia Ana, Bel, Laura, Izie, Trice e Viv que conheci há pouco tempo. Ainda vou conhecer Arthur e Laís. Não conheço Juliana que conhece Mari, mas conheci Raquel que depois conheceu Escobar. Viv conhece alguém da cidade onde cresci e Mari tatuou a última pessoa que partiu meu coração, mas eles não entram nessa história.

Tetê Lian

¹ANDRADE, Carlos Drummond de. In: Alguma poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013

“João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém. João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história”.

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